O alojamento para estudantes universitários mantém a procura em alta, diz quem trabalha no ramo, mas também quem, sendo agente imobiliário, se vê agora na pele de cliente.

Todos os anos, e depois de serem conhecidas as colocações no ensino superior, os principais centros universitários do país agitam-se com a procura de quartos ou apartamentos para arrendar. O alojamento para estudantes tem, em setembro e outubro, o seu pico.

Embora a internet facilite o processo da pesquisa inicial, é quase certo que, nesta altura, as visitas e contactos se sucedem e que os agentes imobiliários se desdobram na procura da melhor solução. 

Na primeira fase do concurso de acesso foram colocados 50.964 estudantes e nestes primeiros dias de outubro o mercado está agitado. Um agente imobiliário de uma agência no Campus da Universidade do Minho e outro que, enquanto pai, procura alojamento para a filha, contam como está a ser este início de ano letivo.

Júlio Lima, da Place Me, conhece bem a agitação que carateriza esta época do ano. A agência de mediação imobiliária está localizada no Campus de Gualtar da Universidade do Minho, em Braga, e funciona como uma extensão do serviço de alojamento da associação académica no que diz respeito ao alojamento privado.

Este ano, a realidade tem sido um pouco diferente. A maior parte dos contactos eram presenciais e, dada a situação provocada pela pandemia, esta abordagem tornou-se menos frequente. 

“Com a questão da Covid houve um bloqueio, até físico, de determinados alunos a entrar no Campus e isso em termos de procura teve um impacto grande. Em termos de contactos telefónicos ou internet aí a dinâmica foi a normal relativamente ao ano passado e recebemos muitas chamadas”, conta. 

“No global, entre o ano passado e este ano eu diria que houve uma pequena descida na procura, mas diminuta”, resume. A justificação está no próprio contexto de pandemia, diz o responsável. 

Se é verdade que o número de novos alunos não sofreu praticamente alteração, podem ter existido algumas alterações nas escolhas que os estudantes fazem em termos de alojamento. Júlio Lima admite que os que residem mais perto de Braga possam optar por continuar em casa dos pais. 

“Uma das principais questões foi mesmo a questão logística, ou seja o facto de este ano não terem o acolhimento, não poderem estar com a mesma força presencial na universidade. Esse foi o fator que mais influenciou a questão da procura, já que o número de alunos é o mesmo e continuamos a ter alunos deslocados”, salienta.

Incerteza adia decisões 

Depois de um ano letivo marcado pelo ensino à distância, que tornou desnecessário arrendar casa ou quarto perto da universidade, estarão os estudantes mais cautelosos em relação à necessidade de alojamento? “A sensação que temos tido é que não. Nos nossos apartamentos praticamente só uma percentagem de 10% – e obviamente com o acordo do proprietário – é que saiu. Todos os outros se mantiveram, porque obviamente queriam segurar o seu lugar para o próximo ano. Não tivemos essa quebra de arrendamento junto dos proprietários”, revela.

Ainda assim, admite que neste ano letivo existe um elevado grau de incerteza que pode condicionar os arrendamentos. “Um dos principais fatores é a questão das aulas, ou seja, acredita-se que vai haver um modelo híbrido – presencial e e-learning – de aulas e é algo que ainda está por decidir. Acredito que isso também será uma das situações que fazem com que neste modelo os alunos não venham já para a universidade. No fundo estamos todos a aguardar o que vai acontecer, porque nada está ainda 100% definido em relação à possibilidade de uma segunda vaga”, reconhece.

Por outro lado, a pandemia não teve qualquer impacto nos preços, diz o responsável da Place Me. “Houve há um ou dois anos uma subida de preço exponencial dos preços dos quartos e arrendamentos e depois houve uma estabilização. Este ano verifica-se uma estabilização, o que também dá uma segurança maior aos estudantes”, afirma. 

De agente a cliente 

Em Viana do Castelo, Rafael Parente está completamente à vontade para aconselhar clientes que procuram alojamento para estudantes universitários. Mas, agora que a filha vai estudar para Coimbra e que, como muitos outros pais, têm de encontrar um quarto ou apartamento, tudo é diferente. 

“Estamos em Viana do Castelo e aconselhamos alguns clientes a comprar, outros a arrendar quartos ou apartamentos completos. E quando chegamos à conclusão que temos de ir para Coimbra, que já não é a nossa zona de conforto, parece que já não sabemos nada”, reconhece.

Tal como muitos dos seus clientes, agora também hesita entre comprar e arrendar e vai analisando a oferta disponível sem ter muitas certezas quanto à melhor opção. “Na nossa zona de conforto conhecemos o mercado e temos soluções. Indicamos a melhor solução em termos de local, de transportes. Quando nos deparamos com uma situação que nos envolve… Embora tendo a vantagem de conhecer alguns pormenores ao nível de investimento, temos de fazer o trabalho todo de novo, andar no mercado a ver o que há e sempre com a sensação que não sabemos nada”, confessa.

Na sua opinião, Viana do Castelo e Coimbra “são diferentes em termos de preço e de população, mas não deixam de ter algumas situações idênticas, como a decisão de ir para fora da cidade ou ficar perto da Universidade”. “Perto da Universidade é um mercado caríssimo; no entanto, se andarmos cerca de 5 km já encontramos coisas a preços acessíveis e que, segundo me dizem colegas da zona, serão um bom investimento no futuro”, explica.

Pelo que viu, é no arrendar de quartos que ainda se verificam questões que já existiam nos seus tempos de estudante: “Há bom, há mau e há situações que deviam ser proibidas”, diz, referindo-se a alguma oferta de fraca qualidade recorrendo ao “velho método do ticket no poste da luz”, ou seja, “a forma informal de dizer que não haverá recibo”. 

Ainda assim, nota uma grande evolução no mercado, não só ao nível do cumprimento das obrigações legais e fiscais, mas também à própria forma como os estudantes de uma cidade se organizam em grupos de três ou quatro para procurar apartamento noutra cidade.

Comprar ou arrendar: o velho dilema

“E depois temos o flagelo do país, que são rendas altíssimas, o que nos leva, a nós que estamos no ramo, a fazer as contas que aconselhamos aos nossos clientes. Será melhor investir ou arrendar? No fundo é essa a maior indecisão que existe”, admite.

E é aqui que Rafael Parente deixa de ser agente imobiliário e assume totalmente o papel de um pai que tem um orçamento para gerir: “Sendo eu do ramo, se fosse aqui na minha zona era fácil aconselhar a comprar. Ao ir para fora sinto a dificuldade que as pessoas têm, porque não sabemos se daqui a um ano o nosso filho desiste, se estaremos mesmo a fazer um bom investimento na melhor zona. Tendo eu a vantagem de poder falar com os parceiros da zona, se calhar com os melhores”.

Aliás, o facto de poder falar com os seus pares e aconselhar-se sobre a melhor opção tem sido bastante importante neste processo. Na pesquisa inicial detetou algumas opções, mas agora, depois de conversar com algumas pessoas do ramo, descobriu outras bem mais interessantes: “Encontrei, em zonas idênticas, situações que me parecem muito mais oportunidades do que outras que o mercado está a publicitar”. 

Para já, e embora não tenha ainda tomado uma decisão, admite que o mais provável é adquirir um imóvel “mais longe do centro universitário”, até porque a filha tem viatura própria. “Todos nós gostaríamos de arrendar um apartamento para um filho, mas estamos sempre a falar de rendas de 600 ou 700 euros, o que é uma percentagem do orçamento considerável para qualquer pessoa e há que fazer contas aos restantes custos que estão associados a ter um filho a estudar”.  

“Até podemos pensar que conhecemos o mercado, mas quando nos toca nós… Podemos ter um pouco de vantagem por podermos falar com colegas. Sabemos que se o apartamento tiver uma cozinha velha, com três mil euros valorizamos em cinco ou dez mil. De resto somos exatamente igual a qualquer pai que vai ficar triste porque vai ficar sem a filha”, confessa, antevendo já o momento em que a filha vai fazer as malas e partir para a nova casa.

Fonte: Centralimo

  • há 2 meses